Tradição e tecnologia geram bons negócios no Paraná

Vintage, retrô, “do tempo da vovó”: o nome já não importa. O que vale para o consumidor de hoje é que o produto remeta a alguma experiência do passado. Objetos que possam recriar momentos e conduzir novas histórias. A indústria paranaense está de olho nessa tendência – a diferença é que agora é possível produzir objetos e utensílios “antigos” usando toda a tecnologia disponível.

Mais do que uma volta ao passado, o movimento de mercado tem gerado bons negócios. “Muita gente pensava que o mundo retrô seria apenas um modismo. Mas várias marcas estão voltando ao seu passado, retomando sua essência e apostando em produtos em que o consumidor não quer que se mexa muito”, explica a consultora Annelise Vaine Castelli, da gerência de Inovação, Gestão e Talentos do Sistema Fiep.

Cheirinho de bons negócios na cozinha

Em Marmeleiro, no Sudoeste do Paraná, a MTA é um bom exemplo de inovação e tradição. Fabricante de utensílios para cozinha, a empresa desenvolveu uma panela de pressão com visor. O produto é exclusivo no mercado, tem patente depositada e hoje responde por 35% do faturamento da indústria.

É seguida de perto por uma linha totalmente oposta de produtos: panelas e chaleiras de ferro fundido, que representam 15% das vendas. “São peças produzidas em volume menor e que têm grande durabilidade. Mas, como possuem maior valor agregado, têm uma participação interessante no faturamento”, explica Eduard Froza, diretor comercial e de marketing da MTA. O valor agregado, neste caso, não pode ser medido somente pelo processo produtivo ou pelo resultado financeiro. Froza conta que a memória afetiva ligada às panelas de ferro fundido gera valor para a marca: “queremos chegar na lembrança de um neto que, anos depois, volta a comer um alimento preparado em uma panela igual àquela em que sua avó cozinhava. Isso reforça a ideia de que nossos produtos passam de geração a geração”, pontua.

Tradição sobre duas rodas

A memória afetiva também faz parte do portfólio de produtos da Master Bike. A indústria localizada em Ampére, também no Sudoeste, foi fundada em 2007. De lá pra cá, tem desenvolvido bicicletas para todos os gostos e experiências. Uma delas é a Super Barra, modelo inspirado na Barra Circular, que fez sucesso entre os anos 1960 e 1980 e tem um público fiel até hoje. O diretor comercial da Master Bike, Silvio Giordani, explica: “a Super Barra é uma bicicleta com peças especiais, mais robustas, com um aro mais forte, que aguenta mais pancadas. Essas características fazem com que tenha como clientes fiéis profissionais como pedreiros e jardineiros, entre outros, que usam a bicicleta para o transporte de seus instrumentos de trabalho”.

A combinação entre tecnologia e lembrança de marca também faz parte da rotina de negócios da Artvidro. “Na nossa fábrica, utilizamos algumas máquinas da década de 1920, que eram do meu bisavô”, conta Emerson Brunor, sócio-gerente da Artvidro.

Instalada em Almirante Tamandaré, Região Metropolitana de Curitiba, a indústria fabrica peças em vidro. Um dos carros-chefes são os baleiros giratórios, que superaram o valor utilitário e hoje são objetos de decoração. “Produzimos cerca de mil baleiros por mês, o que dá 5 mil compotas para a montagem deles. Às vezes o produto sai do mercado, mas de repente volta porque as pessoas gostam do que é antigo”, destaca Emerson.

Inovações nos processos

Produzir objetos com ares de antiguidade não significa voltar no tempo dentro da fábrica. Pelo contrário: os processos de produção das indústrias paranaenses combinam novas necessidades de consumo ao apelo afetivo de um produto. Na Artvidro, a maneira de moldar os vidros é a mesma, mas todos os produtos são feitos com vidro reciclado: “São cerca de 20 toneladas por mês. Hoje conseguimos customizar a tampa das compotas, com aplicação de logos para marcas, por exemplo. O produto fica mais atrativo”, relata Emerson.

De volta à cozinha, a MTA comercializa as panelas de ferro fundido com alças de silicone removíveis. Um produto que remete ao passado, mas aproveita a tecnologia para garantir mais segurança aos consumidores. A Master Bike, por sua vez, desenvolveu uma linha de bicicletas com componentes modernos e design 100% inspirado no passado: a Bella Retrô. Em agosto, a indústria inaugurou uma nova fábrica em Francisco Beltrão, de onde também saem bicicletas com câmbios, suspensões e freios de alta tecnologia agregada. A nova fábrica possibilita um processo produtivo mais mecanizado, garantindo maior agilidade.

Todo esse movimento, segundo a consultora Annelise Vaine Castelli, ainda tem muito a crescer: “é parte de uma contracorrente que busca tornar produtos complexos cada vez mais simples e sustentáveis, eliminando excessos”, conclui.

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