Tecnologia transforma vidas de jovens de baixa renda

Escola em Surubim e Centro Cultural Coco de Umbigada, em Olinda, promovem ensino de robótica e programação

O Centro Cultural Coco de Umbigada, em Olinda, promove o acesso à tecnologia e a valorização da ancestralidade

O que uma escola em Surubim, no Agreste do Estado, e o Centro Cultural Coco de Umbigada no bairro de Guadalupe, em Olinda, têm em comum? Nestes locais, jovens de baixa renda ganham a oportunidade de se aprofundar na tecnologia e ampliar seus horizontes. Eles criam soluções para problemas da vida real e desenvolvem competências valorizadas no mercado de trabalho em constante transformação devido às inovações tecnológicas.

Leia Também


Talles Almeida, 20 anos, é um exemplo de quem teve a vida transformada pela tecnologia. Ele conquistou uma bolsa para estudar na PUC de Porto Alegre após desenvolver uma bicicleta que gera energia a partir de motores de impressoras capaz de carregar um celular, um projeto chamado de Sustenta Bike.

A ideia nasceu de uma adversidade. Quando os dez computadores do colégio Marista Pio XII – uma escola social em Surubim voltada à formação de 900 crianças e adolescentes com renda per capita de um salário mínimo e meio – queimaram devido à instabilidade elétrica, ele foi um dos alunos escalados para tentar encontrar um uso para o material. Então, foram criadas as aulas de robótica com sucatas e desenvolvimento de aplicativos no contraturno, que chegou a reunir 70 alunos.

A partir dos motores de impressoras sucateadas, Talles criou a bicicleta. Ele apresentou o projeto em feiras  e teve destaque no Congresso Marista de Educação e no Festival Internacional de Robótica do Marista, que reúne 41 escolas.

Galeria de imagens

Legenda
Anteriores
Próximas

“Com as aulas de robótica, eu decidi desmontar a impressora e pegar os motores. Perguntei ao professor se tinha como gerar energia a partir dali. Ele disse que não sabia, pediu que eu investigasse. Cheguei em casa, peguei a bicicleta, coloquei ela de cabeça pra baixo e acoplei o motor. Descobri que tinha como fazer isso. Nunca imaginei que iria trabalhar com tecnologia, não tinha conhecimento sobre essa área antes das aulas. Estou muito feliz de ir estudar na PUC, estou esperando o resultado do ENEM”, comenta Talles.  Ele afirma que, depois que começou a desenvolver a bicicleta, conseguiu melhorar suas notas em física porque pode levar a teoria para a prática.

Os alunos do Marista de Surubim desenvolveram outras ideias, como um protótipo de aplicativo capaz de monitorar o volume em caixa de água. O projeto que nasceu a partir da sucata cresceu e, a partir do próximo ano, educação tecnológica fará parte da grade curricular do ensino fundamental. “A partir da SustentaBike, a gente percebeu que outras ideias poderiam nascer naquele ambiente maker, adverso, mas muito construtivo. Eles começaram a pensar como desenvolver soluções para problemas reais dentro do ambiente escolar, a partir daí criou uma interdisciplinaridade muito grande”, comenta o coordenador de educação tecnológica do Marista Pio XII, Daniel Andrade.

LABCOCO

Seguindo a linha de criar oportunidades, o Labcoco, um laboratório de inovação no Centro Cultural Coco de Umbigada, aplica a metodologia do Programa de Oportunidades Através da Tecnologia nas Américas (Poeta), iniciativa global da The Trust for The Americas, uma organização ligada à Organização dos Estados Americanos. O LabCoco é um dos 174 Centros Poeta na América Latina. Através de capacitações online da Microsoft, 150 jovens entre 16 e 29 anos puderam fazer vários cursos, alguns abordam programação. Em 2019, o objetivo é capacitar 200 pessoas.

“A tecnologia, na verdade, é o nosso instrumento para que os jovens possam trabalhar toda a parte cognitiva e também as competências e habilidades. Usamos a tecnologia como um instrumento de transformação. O jovem passa a se conhecer, conhecer as suas habilidades e também o que poderia desenvolver ou aprimorar. Então, por exemplo, com a programação, o jovem está trabalhando o raciocínio logico, criatividade, a resolução de problemas. Com isso, consegue trazer essa experiência, nova forma de olhar, fazer coisas para sua vida pessoal. E trazer isso para a vida profissional”, explica a coordenadora Poeta Brasil, Fátima Galeazzo.

Um dos alunos mais aplicados é David Albuquerque, 17, que concluiu quatro cursos. “Aprendi a lógica da programação através de jogos. Vai me ajudar na busca por emprego”, comenta.

Mas a ideia do LabCoco não é só preparar jovens para o mercado de trabalho, mas torná-los autônomos. “É preciso oferecer uma formação que trabalhe a diversidade, em que o jovem busque transformar o seu território”, diz o coordenador de projetos, Ricardo Brazileiro.

No Centro Cultural Coco de Umbigada, o LabCoco divide espaço com um terreiro de candomblé. Para valorizar e preservar a ancestralidade, o coco e a cultura de matriz africana marcam os projetos de inovação desenvolvidos no espaço, como é o caso do Contos de Ifá, uma plataforma educativa de jogos de aventura com base na mitologia de matriz africana, disponível no site Contos de Ifá. Este ano, 45 jovens trabalharam em uma nova etapa do game. Também são realizadas sambadas de coco na comunidade para não deixar a cultura ser esquecida. Nestas sambadas, muitas vezes, é feita a divulgação dos cursos oferecidos no LabCoco.  

O coco também está no jogo. O músico Quinho Caetés, 53, músico do centro há 20 anos criou a trilha sonora com seus instrumentos e a sonoridade do ritmo musical. “A tecnologia trouxe os jovens para o centro e abriu minha mente. Eu consigo colocar meus conhecimentos para frente, mostrar o coco na prática, compartilhar os segredos”, diz.

A ideia é fazer mais. “Nosso desafio é garantir a sustentabilidade mínima do laboratório”, comenta Brazileiro.

“No coração da nova economia, tem um conjunto de tecnologias digitais sustentadas por plataformas que são construídas sobre softwares. Desenvolver um conhecimento sobre como funciona a lógica da programação deixa essas pessoas empoderadas em relação às possibilidades da computação e seus algoritmos”, defende o professor da UFPE e empreendedor da Joy Street, Luciano Meira.

A Joy Street é uma empresa que cria jogos digitais e promove a gamificação para a aprendizagem. Este ano, os produtos usados na Rede Municipal de Ensino do Recife atingiram dez mil alunos. Para Meira, o aprendizado da tecnologia ganha força quando as pessoas se associam. “As pessoas podem aprender sozinhas, mas se fizer com outras pessoas, a velocidade, a intensidade, a profundidade da aprendizagem será muito mais interessante”, enfatiza.

Palavras-chave

Recomendados para você

Powered by WPeMatico

Related posts