Tecnologia permite baratear custos e melhorar atendimentos de saúde

“Não faz sentido ter uma estrutura separada em público e privado. Não vejo problema em setor público comprar algum espaço do privado, e vice-versa”, diz Marcus Gimenes, presidente da Consulta do Bem (foto: Consulta do Bem/Divulgação)

O sistema de saúde no Brasil tem encontrado na tecnologia um caminho para melhorar a eficiência. Se quem depende do atendimento público depara-se com falta de profissionais, equipamentos e medicamentos, a burocracia e o alto custo afastam quem paga planos de saúde. O uso de startups permite não só mapear o fluxo de leitos hospitalares, como reunir médico, local e aparelhos para intervenções, reduzindo o tempo de atendimento e o custo dos serviços.Em uma sexta-feira de 2017, a aposentada Indiana Ludviger, 61 anos, foi diagnosticada com apendicite. Sem ter plano de saúde, tentou agendar uma consulta particular. Apesar da necessidade de cirurgia, foi alertada de que o procedimento não seria agendado rapidamente. Depois de fazer alguns orçamentos, viu que a intervenção custaria cerca de R$ 100 mil. Sem opção, já que na rede pública ficaria meses à espera da cirurgia, recorreu a startup Consulta do Bem.

A plataforma viabiliza o encaixe de cirurgias, exames e consultas em horários vagos de médicos em clínicas, laboratórios e hospitais, em um modelo de economia compartilhada a preços acessíveis. Dessa forma, Indiana conseguiu ser operada um dia depois da confirmação do diagnóstico. “O atendimento foi excelente, por uma equipe ótima, em um hospital de referência em São Paulo. Não houve burocracia, foi ágil, e paguei R$ 9 mil. Bem menos do que eu havia orçado no método particular convencional”, comemora. Desde então,  a aposentada aderiu aos serviços do Consulta do Bem.

A expectativa dela é de que surjam outras startups para atender a procura por saúde no país. “Tem mercado e demanda. A rede pública não dá conta, e o sistema conveniado regular tem os preços muito salgados. Concorrência é sempre boa”, avalia Indiana.

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As startups na área da saúde respondem, atualmente, por 6% do mercado. É o terceiro maior segmento entre essas empresas — empatado com outras atividades —, de acordo com a Associação Brasileira de Startups (ABStartups). E não é para menos que seja um nicho em evidência. A oferta de alternativas ao atual e convencional serviço de saúde está quebrando paradigmas e ajudando milhares de brasileiros.

A empresa Mais Leitos atua em uma outra ponta. Auxilia hospitais a fazerem um mapeamento do fluxo de leitos. Com o uso da plataforma, há uma melhora de mais de 30% na fluidez dos leitos ante os hospitais que não utilizam o sistema, possibilitando que mais pessoas consigam atendimento médico e internação. “Até então, a internação era vista pelo viés de hotelaria, no qual existem processos relacionados ao controle e acompanhamento de situações como monitoramento das camas para limpeza e disponibilidade. Mas toda a parte estratégica era desconsiderada”, ressalta o presidente da companhia, Paulo Pequeno.

O grande desafio das startups na saúde é inovar no setor público. É o que avalia o especialista na criação de soluções digitais e consultor de startups Yan Trindade. Em um país com proporções geograficamente continentais, onde 161,3 milhões de brasileiros não contam com plano de saúde, um obstáculo e tanto. “Esse mercado tende a agregar mais quando o movimento de inovação chegar ao setor público, para trazer uma maior eficiência, transparência e melhor gerência de recursos”, diz.

Para Trindade, existe uma falha governamental na resolução dos problemas e no acesso à saúde, e isso poderia ser resolvido em conjunto, por meio das inovações tecnológicas fornecidas pelas startups. “O sistema, atualmente, é falho e carece de métricas para entender a fundo os problemas que temos na sociedade”, sustenta. Apesar disso, ele reconhece a tentativa de entendimento do governo sobre o tema. “O Estado busca entender o que é o ‘movimento startup’ e fomentar editais, concursos de inovação. Mas as falhas ainda existem”, ressalta.

Parcerias

A tecnologia pode, quer e tem capacidade para auxiliar o sistema de saúde, prega Trindade. Mas as startups só terão papel fundamental se conseguirem na reduzução de custos de consultas, procedimentos e na compra de medicamentos. “Essas mudanças somente serão possíveis mediante parcerias de longo prazo entre os setores público e privado. Apesar de termos tantas soluções e inovações, nosso sistema ainda é muito lento e burocrático”, lamenta.

Na capital paulista, a integração entre as startups e o Estado começa a virar realidade. O presidente da Consulta do Bem, Marcus Gimenes, afirma que a startup iniciou conversas com a prefeitura, que têm evoluído. “Os diálogos estão amadurecendo e fazendo parte de projetos pilotos. E só vejo esse modelo crescendo daqui para frente”, analisa.

A união entre as redes pública e privada é um tema com o qual Gimenes está familiarizado. Médico cirurgião cardíaco, ele participou do programa de inovação em cirurgia minimamente invasiva e da Parceria Público-Privada (PPP) da Cirurgia Cardíaca da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp). Para ele, esse tipo de integração é mais do que essencial.

“Temos visto que o sistema público pensa em como utilizar a estrutura privada para dar vazão aos serviços. Uma boa parte das infraestruturas já existe, principalmente nas grandes metrópoles. Não faz sentido ter uma estrutura separada em  público e privado. Não vejo problema em setor público comprar algum espaço do privado, e vice-versa”, pondera Gimenes.

Inovação na mira do governo

O governo federal está antenado às mudanças que as startups têm promovido na saúde e disposto a participar ativamente desse processo. Para o secretário da Ciência, Tecnologia e Insumos Estratégicos (SCTIE) do Ministério da Saúde, Marco Fireman, a inovação é o principal mecanismo de desenvolvimento do país e das soluções para a cura de diversas doenças.

Em vista disso, a pasta tem apoiado os Institutos de Ciência e Tecnologia (ICTs), que funcionam como incubadoras de diversas startups em saúde. Em 2017, o ministério fechou parceria com a Empresa Brasileira de Pesquisa e Inovação Industrial (Embrapii) para destinar R$ 150 milhões a  pesquisas na área da saúde.

A expectativa é de que o investimento seja traduzido em produtos que tragam avanços tecnológicos não só em medicamentos, mas em processos e equipamentos para melhorar a rotina do sistema de saúde. “E ainda este ano, temos a meta de fechar parceria com uma aceleradora para identificar projetos de startups que sejam estratégicos para o Sistema Único de Saúde (SUS)”, destaca Fireman.
Para o secretário, não há dúvidas de que a inovação tecnológica possa trazer ganhos para melhorar a qualidade do atendimento em saúde. “E, nesse sentido, o trabalho das startups na área pode trazer benefícios, tanto em atendimentos quanto em tecnologias que resultem na melhora de tratamento e prognóstico em saúde. Além de trazer para uma escala de produção nacional produtos de importação. Desenvolver tecnologia pode ampliar nosso acesso, na medida em que  torna custos menores”, sustenta.

* Estagiários sob supervisão de Rozane Oliveira

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