Smart Cities: ciência e tecnologia como base para encontrar soluções nas cidades do futuro

Cientistas ajudam a tomar decisões que melhoram a vida da população em cidades como Nova York — Foto: ShutterstockCientistas ajudam a tomar decisões que melhoram a vida da população em cidades como Nova York — Foto: Shutterstock

Cientistas ajudam a tomar decisões que melhoram a vida da população em cidades como Nova York — Foto: Shutterstock

Quando se fala em cidades inteligentes, a imagem que vem à mente é a de um cenário futurista repleto de ferramentas tecnológicas inovadoras. O conceito, porém, é mais amplo do que uma coleção de novos equipamentos.

Utilizar a ciência como base para as decisões na gestão de um centro urbano. Assim podemos resumir a complexa definição de smart city. Por aí se explica a íntima ligação com novas tecnologias, que facilitam uma porção de tarefas ligadas ao conhecimento científico, como a coleta de dados. “Este é um dos problemas no Brasil. Quando alguém quer importar um modelo, acha que basta comprar equipamentos. Não se vê uma prefeitura que decida, por exemplo, que tem de contratar cientistas. É o que existe em Nova York, Amsterdã, São Francisco. Antes de ir às compras, é preciso ter cientistas trabalhando nos problemas”, alerta Fabio Kon, professor do Departamento de Ciências da Computação da Universidade de São Paulo (USP). “Um dos caminhos é gerar muitos dados que sejam abertos, para que todos saibam como funciona, por exemplo, o sistema de transporte, a coleta de lixo. Se há GPS em cada caminhão de coleta, podemos ver o quanto cada veículo coletou de lixo. Com dados abertos, a sociedade gera melhores soluções”, complementa.

Cruzar informações para compreender demandas com tecnologia para supri-las gera algumas dessas soluções. Em São Paulo, por exemplo, a Linha 4-Amarela do metrô, administrada pela ViaQuatro, opera com gestão de capacidade que percebe o aumento de fluxo de passageiros, o que provoca o recálculo da quantidade de trens para atender à demanda. Além disso, há informações sobre o tempo para a chegada dos trens às estações e sobre a lotação de cada vagão. “Estamos focados nesses modais de rodovia, mobilidade urbana e aeroportos, que têm tudo a ver com a vida nas cidades. Temos a missão de ofertar o serviço com a melhor qualidade possível, o que passa por usar essas novas tecnologias e colocar em prática esses conceitos de Cidades Inteligentes”, avalia André Costa, diretor da CCR EngelogTec, empresa de tecnologia do Grupo CCR, que inclui também a ViaQuatro.

Outro bom exemplo é o da rodovia CCR NovaDutra, que conecta São Paulo e Rio de Janeiro, as duas principais cidades do país. Ciente da crescente busca por veículos elétricos, uma parceria entre a fabricante de carros BMW e a EDP, empresa do setor energético, instalou seis postos de carregamento para esse tipo de carro na estrada.

Assim, formou-se o que foi batizado de “corredor elétrico”, que tornou possível fazer toda a viagem entre as duas capitais sem se preocupar com o abastecimento. Por enquanto, o serviço, que está em teste, ainda não é cobrado.”Um dos pilares que nós temos é o da inovação e, em qualquer cenário de futuro, o crescimento da mobilidade elétrica está contemplado. Já temos centenas de veículos elétricos no Brasil e, no próximo ano, a previsão é de que chegaremos a milhares de unidades. Com esse tipo de iniciativa, nos colocamos na vanguarda”, celebra Nuno Pinto, gestor de marketing da EDP no Brasil.

Nuno Pinto, da EDP Brasil, ao lado de um dos carregadores do corredor elétrico na CCR NovaDutra — Foto: DivulgaçãoNuno Pinto, da EDP Brasil, ao lado de um dos carregadores do corredor elétrico na CCR NovaDutra — Foto: Divulgação

Nuno Pinto, da EDP Brasil, ao lado de um dos carregadores do corredor elétrico na CCR NovaDutra — Foto: Divulgação

Tecnologia a serviço do idoso

Outra iniciativa ligada à mobilidade e com reflexos importantes sobre o meio ambiente é o da startup Scoo, que oferece um serviço de compartilhamento de patinetes elétricas em São Paulo. Há usuários com os mais diversos perfis. “Alguns fizeram a troca de modal, deixando de usar táxi, ônibus ou bike para se concentrar na Scoo. Outros usam para complementar o transporte público, fazendo o ‘First Mile/Last Mile’ (trechos de casa até o transporte público e do transporte público até o trabalho). Também temos um perfil dos que substituem trajetos a pé pela Scoo, como forma de chegar mais rápido ao destino, já que a patinete chega até 20km/h”, analisa Maurício Duarte, sócio-investidor da Seeds Capital e porta-voz da Scoo.

Um caso bem-sucedido de uso de dados para resolver problemas de parcelas da população vem de Curitiba, onde a prefeitura atacou a questão da velocidade dos semáforos para pedestres. A partir de pesquisas do tempo de travessia de diferentes perfis de pessoas, veio a constatação de que, para os idosos, atravessar a rua era uma tarefa complicada.

A solução? Utilizar, nos semáforos, o cartão que os identifica para garantir isenção no transporte público. O idoso encosta o cartão em um sensor, instalado no semáforo. Com isso, programa-o para que fique mais tempo aberto para os pedestres, permitindo a travessia em velocidade confortável. “Nós fizemos esse primeiro pacote em 30 cruzamentos. Pesquisamos para entender onde havia mais demanda, como, por exemplo, em regiões próximas a unidades de saúde e terminais de ônibus”, destaca Pedro da Silva Junior, diretor de operações da Superintendência de Trânsito (Setran) de Curitiba.

Esse tipo de solução cada vez mais se espalha por cidades do mundo. Com a possibilidade de se trabalhar com alta quantidade de dados e os avanços nas telecomunicações, há imensas perspectivas de avanço. “Há uma possibilidade de sensoriar o mundo físico. Coletar facilmente valores referentes a diferentes grandezas, como temperatura, umidade, presença de um gás, luminosidade e pressão, entre outras”, afirma Antonio Loureiro, professor do Departamento de Ciências de Computação da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). “A partir da análise de dados, você pode trabalhar em áreas como a de inteligência artificial, com aprendizado de máquinas. Através de algoritmos propostos para extrair conhecimento desses dados, é possível classificar e detectar padrões de comportamento”, complementa.

Os desafios brasileiros nas smart cities

Mesmo que alguns bons exemplos tragam perspectivas animadoras, o Brasil ainda engatinha na proposta de soluções que transformem suas cidades em smart cities. Além das questões culturais, há barreiras de legislação que impedem o desenvolvimento desse tipo de ferramenta. “A implementação ainda é bastante embrionária se compararmos com outras grandes cidades. Até há pouquíssimo tempo, nós não tínhamos o arcabouço regulatório e legal suficientemente estabelecido para o desenvolvimento dessas soluções”, avalia Jorge Barros, CEO para o Brasil do Instituto Smart City Business America, entidade que promove o avanço das discussões relacionadas às cidades inteligentes.

Barros destaca como marco a recente sentença, no Supremo Tribunal Federal (STF), que regulamentou a utilização da Contribuição Para o Custeio da Iluminação Pública (Cosip) para financiar desenvolvimento de projetos de Cidades Inteligentes no Brasil. A legislação é considerada essencial para viabilizar Parcerias Público-Privadas (PPPs) e tirar os planos do papel, colocando as cidades brasileiras no caminho do futuro.

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