De Silicon Valley a Alhandra. Escolas onde a tecnologia não entra

As galochas estão sujas de lama, alinhadas em prateleiras antes das salas de aula. Sinal de que, apesar da chuva, foram calçadas para chapinhar nas poças de água do pátio, onde com um resguardo não há chuva que incomode… e ninguém impede as crianças de brincar, de subir às árvores, de ajudar a tratar dos animais… Nas salas de aula, os alunos calçam pantufas quentinhas que oferecem o mesmo conforto de casa. Esta é a Escola Jardim do Monte, numa quinta em Alhandra (Vila Franca de Xira), onde cerca de 130 alunos estudam desde o jardim-de-infância ao 6.º ano de acordo com a pedagogia Waldorf, a mesma que pretende desenvolver indivíduos livres, integrados, socialmente competentes e moralmente responsáveis. Onde as crianças são vistas como um indivíduo único e se contesta a teoria de que cada criança é uma tábua rasa.

Uma escola que segue a pedagogia Waldorf é uma escola muito diferente das do ensino convencional – desde logo porque nestas salas de aula não entram computadores, tablets e smartphones antes do terceiro ciclo, nunca antes de as crianças terem 13 ou 14 anos. O debate cá fora faz-se ao contrário, enaltecem-se as vantagens das tecnologias como instrumento da procura de informação e do saber e a sua utilização na sala.

Espante-se quem nunca tinha ouvido falar da pedagogia Waldorf ao ficar ainda a saber que os pais de Silicon Valley, aqueles que são cérebros de empresas de tecnologia como a Google, a Facebook ou a Microsoft, só para dar três exemplos, estão a procurar estas escolas para os seus filhos… porque querem as suas crianças arredadas dos ecrãs nas salas de aula e preferem que tomem contacto com um tipo de ensino alternativo, cujo objetivo é integrar de maneira holística o desenvolvimento físico, espiritual, intelectual e artístico.

Mas, conta o TheNew York Times, os pais de Silicon Valley estão tão reticentes em aproximar os seus filhos dos ecrãs que chegam a obrigar as amas a assinar contratos em que estas se comprometem a não usar os telemóveis enquanto estão a cuidar das crianças. O que, dizem algumas, não deixa de ser bizarro porque são pais interessados, que podem ligar a qualquer hora para saber dos filhos.

“A criança precisa de contactar diretamente com a fonte do saber – e o computador não é uma fonte direta de saber, é um transmissor”

Leonor Malik, presidente da HARPA, a associação que gere a escola Waldorf Jardim do Monte, em Alhandra, explica a opção desta pedagogia, que só traz os ecrãs às salas de aula no 8.º ano: “Até determinada idade, 13/14 anos, para formar uma relação edificadora com o saber, a criança precisa de contactar diretamente com a fonte do saber – e o computador não é uma fonte direta de saber, é um transmissor. O computador não vai ajudar no processo educativo e evolutivo da criança até determinada altura porque ela precisa de criar a tal ligação direta com a fonte de conhecimento, para que passe a fazer parte de si.”

Na sua opinião, quando chega à adolescência, “o ser humano, em termos do seu desenvolvimento natural, está apto a funcionar mais à vontade com o pensamento abstrato e com a capacidade de se relacionar com as coisas à distância”. Logo, está mais apto para usar computadores.

Não quer isto dizer que Leonor Malik proíba as crianças de usarem tecnologias em casa, isso é uma opção, que diz respeito aos pais, embora faça questão de os alertar para os malefícios. Mas será de acreditar que quem procura deliberadamente esta pedagogia alternativa queira também segui-la em casa, certo? Ana Granja tem dois filhos na escola Waldorf de Alhandra, o André (10 anos) e a Matilde (6). Confessa que descobriu a pedagogia quando procurava escolas com alimentação biológica – em casa são vegetarianos, esta escola serve refeições ovolactovegetarianas. Mas depois de conhecer o estabelecimento encantou-se – a mãe e as crianças. Diz que “é a melhor escola do mundo”, pelo respeito pelo meio e pelo espaço à sua volta. E não tem dúvida de que os seus filhos serão “seres humanos mais bem preparados”.

Concorda que na escola não haja recurso a ecrãs, mas em casa cede cerca de uma hora por dia. Ao fim de semana pode ser mais um bocadinho. “A nível de aprendizagem, a tecnologia e os computadores não têm importância, são dispensáveis, distraem mais.”

Ana Granja é auxiliar de ação educativa e não deixa de ter opinião sobre as decisões dos pais de Silicon Valley, os especialistas da tecnologia que querem ver os seus filhos mais novos afastados destas coisas. “Os mais entendidos no assunto sabem bem o que mais os prejudica, têm um grande conhecimento sobre a matéria.”

Isso mesmo pensa Leonor Malik – que quem trabalha com elas conhece melhor do que ninguém os malefícios das tecnologias. José Morgado, professor de Psicologia da Educação do ISPA, vê neste tipo de posição vinda de quem em princípio não se esperava uma semelhança com o que acontece noutros planos, nomeadamente nas questões que dizem respeito à alimentação e ao consumo, como os movimentos slow, de desacelerar a vida. “São fenómenos reativos a algum tipo de excessos em que as pessoas julgam estar a ficar envolvidas profissionalmente. Percebem que aquilo pode não ser a melhor opção de modelo de vida e procuram prevenir nos seus filhos o risco de desenvolverem relações tão próximas e tão persistentes, quase exclusivas, neste caso com as novas tecnologias.

Crianças devem conhecer quotidiano dos adultos

No entanto, considera que é preciso evitar algum fundamentalismo do tipo “agora vamos banir o acesso e a utilização das novas tecnologias”. “Também não me parece que a resposta a uma sobreutilização ou dependência quase exclusiva dos ecrãs (que são quase babysitters) seja banir. Até porque as estratégias proibicionistas nos miúdos quando ao lado têm outros que usam é como as questões do tabagismo – é melhor mediar, ajudar a construir uma utilização autorregulada.” É isso que faz Ana Granja – deixa os filhos brincarem uma hora por dia com computadores. Mas chega. Para ela é preferível uma escola que nem sequer tem rádio na sala, onde quem canta são os próprios alunos.

Para o professor universitário José Morgado não há dúvidas: aquilo que faz parte do quotidiano dos adultos deve ser do conhecimento das crianças, dentro dos respetivos parâmetros etários: “Não vejo razão para que os ecrãs não estejam presentes, com a devida cautela, com a devida mediação, com a devida parcimónia, na vida dos miúdos mais novos. Não há nenhuma razão para isso, até porque são ferramentas de acesso ao conhecimento mas também de adaptação à realidade que vão encontrar ao longo da vida.”

Leonor Malik, da Escola Jardim do Monte, entende que a utilidade de usar as tecnologias, nomeadamente um computador, só vai revelar-se quando o aluno perceber o que é um computador. Por isso, na sua escola (que neste ano não tem 3.º ciclo), antes de começarem a usá-lo observam máquinas desmanchadas para perceberem como são por dentro e como funcionam. Só depois passam à fase seguinte.

Mesmo que o uso das tecnologias chegue mais tarde, Leonor Malik acredita que as crianças que estudam segundo a pedagogia Waldorf serão adultos adaptados no futuro. Porque durante anos estimularam a criatividade, a autonomia e a responsabilidade. “Os nossos alunos distinguem-se pela autoconfiança.”

Um patamar que se atinge estimulando o lado artístico e espiritual numa forma de aprender que fica muito longe dos métodos de ensino tradicional. As aulas não são expositivas, fomentam uma dinâmica de pesquisa, de experimentação, de observação. Por exemplo, pode-se aprender matemática na quinta, quando se semeiam favas, medindo os centímetros de distância entre cada leguminosa, somando os centímetros entre duas ou três. Ou até multiplicando o número de fileiras para se chegar ao total de favas plantadas. Ou seja, aprender e experimentar, de preferência em contacto com a natureza. É essa a base da pedagogia assente na filosofia da educação, a antroposofia, criada em 1919 pelo austríaco Rudolf Steiner.

Essa é a crítica que Leonor Malik faz ao ensino tradicional. “A escola é hoje meramente informativa e deixa de ser formativa. Ensinar frações a uma criança pequena é um disparate, não contribui para o que se pretende, que é crescer com o saber, para que seja formativo, para que se edifique e possa vir a construir o seu projeto de vida de forma que tenha sentido próprio e possa viver em coerência com algo.”

Incoerência é, de resto, algo que recusa na não utilização de tecnologias nas salas antes dos 13, 14 anos. “O adolescente começa a etapa de fechar uma porta e ir pensar no assunto, começa esse trabalho que é depois o trabalho de uma vida. Antes disso, a criança quer é ver as coisas, senão é tudo uma seca. Quando a adolescência nos traz essa nova característica, então aí vamos explorar essa capacidade que o adolescente já tem de se relacionar com o pensamento abstrato e de poder rever e relacionar-se com as coisas à distância dentro de si próprio, por experiências que ganhou. E aí o computador passa a ser um instrumento útil.”

vejo que aqueles pais são sobreutilizadores das tecnologias, sabem o peso que o excesso de ligação aos ecrãs tem na falta de qualidade de vida

Chegaremos ao ponto de ter as escolas mais pobres equipadas com ecrãs e as mais ricas livres de tecnologia? Diz José Morgado: “Em Silicon Valley, os pais estão a sofrer de uma overdose. Mas não percebo como é que fazemos um back to basics tão forte, a não ser que isso seja uma opção de vida. Posso ir viver para uma caverna, é a minha opção de vida, transformo-me em vegan, só como o que a natureza dá e faço um back to basics rigoroso, fundamentalista. Eu não vejo a vida assim, vejo que aqueles pais são sobreutilizadores das tecnologias, sabem o peso que o excesso de ligação aos ecrãs tem na falta de qualidade de vida e dizem ‘não quero que os meus filhos passem por este tipo de experiências’. Para isso não preciso de as proibir, porque não tenho a certeza se não vou criar um problema para acabar o outro.”

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