Blockchain, a tecnologia da confiança

A banca internacional foi um dos mais ‘early-adopters’ e apoiantes de blockchain”, refere Rui Serapicos, presidente da Aliança Portuguesa de Blockchain. “Num levantamento recente das cinco entidades que mais patentes apresentaram relacionadas com blockchain, três estão relacionadas com a banca, sendo elas a Mastercard, o Bank of America e o Bank of China”.

Para Rui Serapicos, o blockchain pode ajudar o sector da banca e dos serviços financeiros a desenvolver soluções para a criação de infraestruturas de serviços em mercados emergentes, criar novos produtos com base em sistemas preditivos e mecanismos controlados por “smart contracts”, soluções de pagamentos e transacções financeiras facilitadas, e até, por exemplo, a criação de mecanismos de resolução de disputas entre consumidores.

Para José Figueiredo, co-fundador e gestor da Blockbird Ventures, a tecnologia blockchain, ou “distributed ledger”, pode revelar-se “especialmente eficaz” nas soluções de pagamentos instantâneos. Na sua opinião, há uma procura cada vez maior, “não só por clientes de retalho mas também por clientes corporativos, que exigirão soluções ágeis de “clearing” e “settlement” que lhes permitam rastrear e gerir liquidez intra e inter dia”. Acrescenta ainda que “a maioria dos reguladores é a favor da modernização da actual infraestrutura de pagamentos aumentando a competitividade da indústria”.

Nos pagamentos internacionais não existe uma câmara de compensação internacional e os pagamentos dependem de bancos correspondentes, causando ineficiência, demora e elevados custos. Segundo José Figueiredo, “um modelo de pagamentos internacionais assente em ‘distributed ledger technology’ prevê-se que resolva grande parte dos problemas atuais, no entanto, desafios relacionados com escalabilidade e falta de estandardização da tecnologia são ainda um entrave”. Mas já existem duas empresas, a Ripple e a Stellar, com soluções testadas e adoptadas a uma escala global.

Prova e confiança

“A blockchain não é uma tecnologia assim tão actual como muitos pensam, pois nasceu na década passada. Não se pode por isso dizer que a adopção tenha sido rápida, no entanto, a olhar para os valores do investimento nesta tecnologia desde há dois anos, a evolução tecnológica disparou de facto”, diz Paulo Cardoso Amaral, professor auxiliar convidado da Católica Lisbon.

Por outro lado, considera que “a tecnologia não está suficientemente madura para uma aplicação generalizada e com verdadeiro impacto económico. Tal como já se disse, é preciso esperar uns anos, pois, apesar do ‘proof-of-concept’, ainda há muitos problemas tecnológicos para resolver e, em cima disso, ultrapassar a problemática da adopção”.

Este especialista em sistema de informação considera que a tecnologia blockchain pode ser, contudo, geradora de “trustless”. Como afirma Paulo Cardoso do Amaral, “uma tecnologia distribuída como a blockchain pode ter um impacto profundo na confiança e criar relações em que não é preciso confiança para que sejam estabelecidas, pois acontecem como se a confiança fosse sempre máxima”. Acrescenta que “pode, por exemplo, tornar obsoletos os intermediários que sustentam o seu modelo de negócio em criação de confiança, e em cada cadeia de valor o peso deste tipo de entidades é bastante significativo”.

Principais obstáculos

 

“Neste momento, os principais obstáculos à expansão de blockchain baseiam-se na percepção que as organizações têm desta tecnologia”, diz Rui Serapicos. Sublinha que umas das limitações da expansão destas tecnologias é a carência de especialistas e gestores que saibam implementar as melhores soluções com a tecnologia blockchain.

Para José Figueiredo, os obstáculos que se colocam à tecnologia blockchain diferem conforme a indústria a que se aplica. Alerta que na indústria financeira, a performance da tecnologia nas soluções mais descentralizadas não consegue atingir ainda o nível de performance (o número de transacções por segundo) de soluções centralizadas. Sublinha ainda que em “algo que é descentralizado, isto é, que ninguém controla, é necessário uma estrutura de incentivos à prova de bala”, que garanta que os participantes do protocolo se mantêm honestos. Ora, muitas vezes estes incentivos tornam a utilização do protocolo tão ou mais caro que os seus equivalentes centralizados”.

Refere que uma das formas adoptadas para fazer face a estas questões é a criação de consórcios de empresas e outras instituições com “protocolos blockchain fechados (permissioned), onde a participação na rede não é aberta ao público mas apenas a um determinado tipo de nós com determinadas características. Em conjunto estes nós garantem a incorruptibilidade e imutabilidade da rede, sem que nenhum controle a rede individualmente. Este tipo de protocolos tem igualmente melhores performances. São uma solução intermédia entre a total descentralização e a centralização”, explica José Figueiredo.

Lei europeia

 

Rui Serapicos considera que há sectores e empresas que “vão preferir esperar para que uma entidade central, como a Comissão Europeia ou o Parlamento Europeu, dite quais são as leis para depois implementarem da melhor forma essa tecnologia. Em todo o caso, alguns países adoptaram o princípio da não interferência legislativa neste paradigma e que para alguns Governos é considerada não monetária”.

Dá como exemplo economias como a “Estónia, Singapura e Suíça, cada país com o seu foco específico, já decidiram não esperar; são as que estão na linha da frente de blockchain. Portugal não deveria esperar por uma posição consertada da Comissão Europeia, uma vez que a espera irá atrasar investimento directo estrangeiro, atracção de talento e desenvolvimento de ecossistemas de aceleração de soluções de blockchain”, diz Rui Serapicos.

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